Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Entrevistas do além - 4

“AGORA, EU VOLTO ÀS ORIGENS”



Em entrevista exclusiva, Michael Joseph Jackson fala de seu recém-além, traduz sua vida e garante que muda agora – antes tarde do que nunca

Guilherme Póvoas

Magro e descabelado, mesmo que com alguma preocupação com sua aparência. Foi uma semana de intensa negociação e ligações ao além – que passaram até mesmo por Tom Capone e Notorious B.I.G. – até que o hoje desminliguido Michael Jackson confirmasse sua entrevista ao Blog do Póvoas. Assim, este veículo sai na frente do pessoal do TMZ e adianta, a seguir, como e por que [para por aí] Jacko morreu no último dia 25. O músico-produtor-dançarino-compositor-coreógrafo-empresário-rei-do-pop-soul-e-pai-de-três-filhos diz, com sua voz tão fina quanto afinada, que não tomou demerol no dia em que faleceu, mas confirmou que costuma chamar seus coquetéis de remédios de 'tônicos de saúde'. “It makes me feel better”, garante ele. A seguir, os melhores trechos da entrevista concedida no telhado do que ainda é o rancho Neverland sob a condição de que “não usasse fotos recentes da minha pessoa”. Afinal, conforme Jackson, ele está voltando “às origens”. Confere aí!

Blog do Póvoas – Este famigerado rancho, o Neverland, está em vias de se tornar um santuário, uma espécie de local de adoração por parte de seus fãs. Isso lhe anima?
Michael Jackson – Que sirva de espaço para as crianças terem sua diversão, pular, jogar, sonhar. Imagina! Foi para isso que Neverland foi criado, não precisa mudar depois da minha morte. E eu deixei coisas por lá, peças de arte, artigos pessoais, obras raras que precisam ficar exposta de alguma forma, de algum jeito. Lembro que foi mais difícil construir minha carreira como músico do que levantar e ornamentar aquele rancho em Santa Ynez [Los Angeles, EUA]. Enfim, isso o dinheiro explica. Dizem que lá eu nunca tive privacidade, mas enganam-se.

BP – Como você está sendo tratado no céu?
MJ –
Por algum motivo, me colocaram numa ala repleta de comunistas. Estavam todos lá, a maioria eu jamais havia ouvido falar sobre. Mas logo percebi que eram grandes figurões na política mundial, principalmente na América Latina e Europa. Quando eu cheguei, os comunistas de lá deram uma festa. Fiquei sabendo depois que é uma festa tradicional, que eles fazem sempre que alguém novo e notório chega naquela ala. Eles têm até uma faixa guardada para colocar na entrada do alojamento – que eles chama de comuna – nas noites de festas.

BP – E o que está escrito nesta faixa?
MJ – Estava escrito: Seja bem-vindo, mais um comedor de criancinhas.

BP – Ironia do destino: você sempre esteve no topo da parada musical. E agora morre em função de uma parada cardíaca [risos].
MJ – [Jackson não responde. Olha fixo para o entrevistador com cara de poucos amigos].

BP – Desculpe, piada infeliz, tem mais graça em português. Mas, então, o que você estava fazendo antes de morrer e o que realmente o levou à morte?
MJ – Estava assistindo ao Cartoon Network, tranquilo. Não lembro qual o desenho que estava passando, já que estava quase dormindo. Eu estava cansado pois os ensaios para a turnê [That Is It, a derradeira turnê de Jacko] vinham se intensificando. Aqueles ensaios no Staples Center eram um saco – pelo menos disso eu me livrei. Ir para o Staples só serve para assistir ao jogo dos Lakers, é um terrível lugar para ensaiar um show. Enfim, com este cansaço todo, tomei alguns remédios para ajudar ao sono.

BP – Quantos e quais?
MJ –
Ai, por que você está fazendo isso comigo? Quantos? Não lembro. Se muitos? Sim, vários. Quais? Rivotril estava entre eles. Mas todos que tomei haviam sido recomendados pelo Conrad [Murray, médico de Jacko]. Talvez eu tenha tomado uns tônicos de saúde extras, passado da conta. E aí, mais as doses homeopáticas para emagrecer, mais aquela pílula para que eu me separasse do vício de fortificantes capilares, mais um tylenol para curar a ressaca, mais os cremes para rejuvenescer a pele, mais...

BP – Quantas drogas, lícitas, você tomava por dia?
MJ – Quantas? Não sei. Muitas? Sim. Mas Conrad dizia para eu diminuir, ou melhor, recomendava. Ele nunca foi contra mim, contra minhas vontades, meus anseios. Talvez por isso, eu sempre continuei tomando o quanto queria, sem obedecer a ordem médica. Na noite em que morri, ainda enquanto assistia aos desenhos na TV, liguei para Conrad para perguntar sobre algum remédio relaxante muscular. Não que eu não tivesse em casa, mas queria saber qual deles deveria tomar. Acho que foi aí que ele sentiu que eu não estava bem, estava exagerando na dose.
BP – Assistia a desenhos e caiu em parada cardíaca?
MJ –
Isso mesmo. Como você sabe?

BP – Como eu sei? Suponho que sei. Uma dúvida que vai deixar de ser eterna agora, se você falar a verdade: por que sua pele, de negra, ficou branca?
MJ –
Um pouco de vitiligo. Aproveitei esta situação e descobri um creme que deixa a pele mais clara. E descobri também uma linda mulher, Debbie Rowe, que aceitava passar uma espécie de tinta para a pele em mim durante todos os dias. Ele pedia uma coisa boba em troca: casar comigo. O preconceito à minha cor falava mais alto – mesmo sendo eu o primeiro negro a fazer sucesso na MTV. Perdi minha cor, perdi minhas raízes. Mas, mesmo assim, minha música permaneceu em sua melhor forma. Isso ninguém pode negar. Agora, vou mudar. Antes tarde do que nunca.

BP – O que você quer dizer com “mudar”?
MJ –
Agora, eu volto às origens, às minhas raízes. Minha época bad, ou até antes disso. Tenho saudades daquele tempo, daquele pessoal que dançava comigo porque gostava da dança. Hoje em dia tem cada Justin Timberlake querendo passar por estrela... Meu cabelo vai voltar ao antigo black power. E vou ficar, pelo menos, moreno de novo – nem que seja tomando o sol divino [Jacko olha para o relógio, demonstra pressa]. Quero reiterar aqui que adoro meus fãs, amo eles, e agradeço por tudo que eles fazem e representam para mim.

BP – Tá! Finalizando, Michael, segue uma especulação sobre seus filhos, sua herança. Muitas coisas ficaram indefinidas.
MJ – [Jacko se levanta] Obrigado pela entrevista, foi melhor que aquele conversa que tive com Martin Bashir [no documentário Living With Michael Jackson, em 2003].

BP – Jacko, só mais uma pergunta, para finalizar...
MJ - This is it [Jacko se levanta da cadeira e vai embora].

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Entrevistas do além 4

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Entrevistas do além - 3

“E A VIDA IMITOU, NUNCA TÃO BEM DANTES, A ARTE”



Em entrevista exclusiva, João Guimarães Rosa fala do além depois de 42 anos longe de seu corpo e explica sua literatura real quanto hiperreal

Guilherme Póvoas

Foi com um chapéu branco de aba larga, “para tapar o sol forte do paraíso”, que João Guimarães Rosa sentou-se à cadeira virada para dar a entrevista ao Blog do Póvoas. Com um casaco de couro surrado, também branco, e sem qualquer timidez, um dos maiores escritores da Língua Portuguesa conta parte de suas peripécias no sertão mineiro, sua relação com o falecido presidente Juscelino Kubitschek, sobre o sertão ter virado deserto e sobre qual dos escritores ainda vivo ele espera avidamente no terreno paradisíaco dos céus. Guimarães Rosa mostra, nesta entrevista, estar interado dos movimentos políticos brasileiros e que ainda não perdeu sua característica verborragia de imortal da Academia Brasileira de Letras. Confira a seguir os melhores trechos da conversa - regada à cachaça mineira - do escritor com o Blog do Póvoas.

Blog do Povoas - Em que língua devemos executar esta entrevista?
Guimarães Rosa - Eu falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego [mas com o dicionário agarrado]. Entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês. Bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.

BP– [espanto e medo por parte do repórter] So, let’s do it in portuguese.
GR – That’s ok.

BP - O sertão virou mar e depois virou deserto?
GR – Pois parece que sim. Quando eu era criança pequena lá em Barbacena [MG, na verdade, nem tão pequena assim. Guimarães Rosa morou por lá quando tinha 25 anos] tudo não passava de um amontoado, aqui e ali, de cercas e meio palmo de vegetação a tentar viver. Agora, pelo que vejo de lá [ele aponta para cima] nem isso tem. Os viventes debandaram deixando para trás o que ainda lhes sobravam de dignidade. O sertão virou deserto, fato. Mas dizem por aí que depois de virar deserto vai virar mar. De novo.

BP – Isso seria o aquecimento global?
GR – Não vejo outra coisa. Ou os evangelhos estão todos errados e quando tocar as trombetas do apocalipse o sertão, depois de ter sido – antes mesmo de sertão – mar, e agora ainda deserto, vai virar água novamente. E, assim, aquele apocalipse, que prenunciava fogo, vai acabar indo por água abaixo [risos].

BP – O senhor nasceu há 101 anos e morreu há 42 anos. À época de seu falecimento, a medicina disse que o óbito foi decorrente de um infarto, assim como a de um personagem de Grande Sertão: Veredas – obra sua que o senhor mesmo classificou como “autobiografia irracional”. Enfim, foi infarto mesmo?
GR – Enfim, ao fim, e ainda que este fim não tenha chegado... ao fim, foi infarto mesmo. Não se pode prever o futuro, diz o lugar-comum. E não se pode mesmo. Mas na obra enquanto escrevia a obra em que Riobaldo é o protagonista, pensei: olho para os dois lados antes de atravessar a rua – e naquela época quase não existiam carros – então, se for morrer, será de infarto mesmo. E foi o que aconteceu, ou melhor, o que ocorreu. E a vida imitou, nunca tão bem antes, a arte. A vida, nós atravessamos e não vemos, nos entretemos, como uma saída já de chegada, passando por um rio, a nado, de três margens. Viver nem não é muito perigoso.

BP – Quando assumiu sua cadeira na Academia Brasileira de Letras, o senhor afirmou que “a gente morre é para provar que viveu”. Agora, já morto, é isso mesmo?
GR – Nem tanto ao céu nem tanto ao mar, mas este último que ainda nem jamais chegou lá em Minas Gerais. Mas o pai nosso que estais no céu, e logo voltarei para lá, prometeu que um dia chega o mar chega. Nunca acreditei muito Nele. Ele promete um dia o mar chegar a Minas. Eu acredito que o Lula consegue fazer 100% das obras do PAC antes do mar chegar em Minas, ou antes das minas chegarem antes dos manos nos manos.

BP – Moderno o senhor, hein? Acompanhando tudo de perto. Mas a gente morre é para provar que viveu?
GR – Sim. E eu provei, posto estão os meus livros, que são um viviprovando-oavesso. Quando cheguei aos céus, no quarto do quarto, o Senhorconcedendo perguntou-me, de canto eu ainda desouvindo, o que tinha feito eu por Ele. Disse eu: queimava por noite duas, três velas. Ele acreditou. Isso tudo claro, jovem, está posto nas linhas dúbias de uma ou outra daquelas que escrevi depois de rascunharizar por linhas retas o que de torto se passou ao mundo de Riobaldo, que não obstante era o mundo do viventedesapaixonado que fui enquanto me sentia desamorrecido.

BP – Desapaixonado? O senhor se casou bem por duas vezes!
GR – Não venha, vosmicê trajando roupas indistintas que nunca vi nada mais distinto, lembrar-me disso: o amor é um pássaro que põe ovos de ferro. Pesado pra pênis. No céu falo com homenscolegas, mas não me confunda, é que muitos deles por muito esperei por contactar – sendo que lá estão todos exceto um deles que pormuitoespero: García Márquez. Sólamento a quem ficar em terra, quando Márquez subir, vai acabar o realismo mágico mundano e vai estartudoaquilo lá no céu. Por ora, que demora a se espraiar, ô praia, eu charlo com Erico Veríssimo e assisto a ele coçar sua cabeça sem cabelos enquanto ferida-cria-ferida-sara.

BP – Para finalizar a entrevista: sua relação com JK continua afinada?
GM – Juscelino Kubitschek e eu fomos amigo-um-amigo-doutro enquanto éramos médicos exercendo a profissão. Haja vista que atualmente não trato mais com ele por uma questão geográfica: ele desceu, eu subi. Há uma diretriz no paraíso que diz: quem sugou não-devido sangue público não entra. E isso não tem nenhuma relação-indistinta com Juscelino ter sido diretor do Hospital de Sangue nas Minas Gerais. Nunca perguntei, mas acho que ele ter tomado as rédeas da ideia de estruturar uma nova capital ao Brasil, Brasília, deixou sua fama manchada como se ele tivesse apagado rastros da história. Parece que a Coluna Prestes passou por lá.

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Eis o Bloomsday


Hoje, de novo, a Irlanda ferve! Bebe-se cerveja, corre-se nas ruas, escuta-se risadas dissonantes. Enfim, é o Bloomsday. Só quem passou a data de um 16 de junho por lá – entre uma viela e outra de Dublin – consegue explicar o que é este dia em referência a Ulisses, de J. Joyce. Como o blogueiro aqui jamais deu as caras na terra deste escritor, deixo no ar qualquer outro comentário sobre a data. Mas poderia escrever linhas e linhas mais.

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Entrevistas do além - 2

“SE FOSSE COBRAR ROYALTIE, ENRIQUECERIA. MAS SERÁ QUE QUERO ISSO?”



Em entrevista exclusiva, Ernesto Che Guevara fala do além depois de 41 anos de ser assassinado por militares bolivianos e esclarece seus últimos momentos em vida

Guilherme Póvoas

O sotaque do argentino de Ernesto Guevara de la Serna mudou. Arrancava os erres nas palavras mais dramáticas de sua fala. Conclui-se: a temporada cubana do líder revolucionário comunista e xodó até do biquíni de Gisele Bündchen deixou marcas eternas em Che. Entre uma baforada e outra num Partagas “divino”, conforme ele mesmo diz, o médico que morreu aos 39 anos conta nesta entrevista ao Blog do Póvoas uma fração mínima – mas bastante considerável – de sua história. Diz que continua de olho na América Latina e, “lá de cima”, já aprendeu todos os dialetos falados na América do Sul. “Exceto dos indígenas da Bolívia, peguei trauma daquela terra. Talvez por isso não fui com a cara de Evo Morales”, admite o guerrilheiro. Ele também fala da indústria que se criou acerca de sua foto clicada por Alberto Korda. A seguir, os melhores trechos da entrevista concedida em meio à Selva Lacandona, em Chiapas, México. Local escolhido pelo próprio Che porque, segundo ele, “os zapatistas estão entre os poucos que honram o meu legado”.

Blog do Póvoas – Desculpe, El Fuser, mas estou meio nervoso entrevistando o senhor. Mas que avaliação o senhor faz das lideranças atuais das nações da América do Sul?
Che Guevara – Não se preocupe com este nervosismo, já vi centenas de líderes de nação da mesma forma, nervosa, enquanto eu discursava na ONU, no vibrante ano de 1968. Enfim, percebo que há alguns líderes hoje que estão mais [Che dá uma baforada longa em seu charuto cubano “divino”] mais ligados ao meu legado, ao nosso legado. Buenas, companheiro, mas os tempos são outros e não se pode estancar e endurecer enquanto se esquece da ternura. Pedi autorização de Deus para aparecer a Hugo Chávez [presidente da Venezuela]. Não consegui. Mas ele merece alguns conselhos. Com Evo Morales, nem tento nada porque aquele sofrido país [o mais pobre do continente] me causou um trauma indecifrável. Porém, negociando com Deus, já que ele não me liberou para falar com Chávez, consegui segurar por um tempo extra considerável Fidel Castro em terra.

BP – Já era para ele estar morto? E você está negociando com Deus?
CG – Fui consulta-Lo e Ele disse que Fidel não comemoraria os 50 anos da Revolução Cubana. De fato, não comemorou porque ele não consegue nem mesmo levar um charuto à boca. Mas consegui deixa-lo vivo ainda. Até quando esta trégua entre ele e Ele vai continuar eu não sei. Quando cheguei aos céus, juntei uma penca de camaradas. Logo percebi que tinha um superior a eles, que ficava em seu gabinete escrevendo e sentado em uma cadeira atrás de uma mesa. Quando este cara saiu da sala, subi na cadeira e comecei a discursar. Foi um discurso ímpar. Mas ninguém contrariava o cara. Quando descobri quem era, nem mesmo eu ousei contrariá-lo.

BP – Quem era?
CG – Quem, companheiro? Karl Marx. Aquele alemão impõe respeito. E como quando a teoria encontra a prática ninguém consegue segura a onda, começamos a questionar os mortos do paraíso: Deus existe mesmo? Acabou que poucos lá respeitavam Deus, inclusive Ghandi. Porém, recuamos na iminência e ameaça de que um novo caos – aos moldes do criado por Adão e Eva – viria a acontecer. Deus existe mesmo, apesar de até hoje Fidel não aceitar isso. Mas Ele não suporta uma revolução bem feita, não suporta. A ideia era só questionar, marxismo dialético. Mas tomou proporções revolucionárias.


BP – Voltando à Terra. A sua imagem clássica, daquela foto de Korda, está quase tão conhecida quanto à de Jesus esticado na cruz. O senhor se incomoda com isso?
CG – Bem, se fosse cobrar royaltie, enriqueceria. Mas será que quero isso? Não, portanto não me importo muito. Espero que cada modelo que use uma camisa com minha foto em negativo tenha interesse em ir atrás, saber quem é aquele barbudo com piolho até mesmo em sua barba, e que se meteu em cada selva da América do Sul. Admito que muitos não fazem a menor ideia de quem fui, quem sou. Mas é o que sempre digo: derrota após derrota até a vitória final.

BP – Mas são milhões de derrotas, não só em camisetas, mas também em pôsteres, discos, cuecas, calcinhas, embalagem de camisinhas... Enfim, vai longe.
CG – Até a vitória final.

BP – O que lhe parece um metalúrgico, sindicalista, que já carregou a bandeira de Cuba em referência à revolução, estar agora presidindo o maior país do continente e apertando a mão do presidente do maior império do mundo – sendo chamado de “o cara” pelo próprio Obama?
CG – Ser chamado de “o cara” não me parece um problema. Quando estive na ONU, em 1968, fui chamado de cada coisa... [Che olha para cima, com uma sensação de nostalgia] O que me incomoda é ele apertar a mão de Obama, de Bush, de Fernando Henrique Cardoso, de Nicolas Sarkozy, de Nestor Kirchner – odeio este cara -, de Henrique Meirelles, de Vladimir Putin [Che cita uma lista enorme de chefes de nação, impublicável aqui pela questão de espaço]. As mãos dele só não são mais sujas que as minhas quando eu ficava dez dias sem tomar banho em Sierra Maestra porque ele tem um dedo a menos. Porém, quando Lula discursa, eu tiro a minha boina com estrela vermelha.


BP – Para finalizar, a esquerda mundial ainda tem peito para uma revolução?
CG – [antes de responder, Che coça sua barba e dá mais uma baforada no terceiro charuto acendido durante a entrevista]. Veja bem... Ah, como gosto do gosto deste Partagas, me lembra a revolução – e vou acender um especial quando Gabriel tiver seu filho. Veja bem, acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário. O revolucionário deve sempre ser integral. Ele deverá trabalhar todas as horas, todos os minutos de sua vida, com um interesse sempre renovado e sempre crescente. Esta é uma qualidade fundamental. Devo dizer, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é movido por um grande sentimento de amor.

BP – É piegas esta última frase mesmo. Mas estas suas últimas frases não são um emaranhado de frases que o senhor disse ainda enquanto vivo?
CG – Sim, são. Mas a esquerda gosta de ficar no passado. Portanto, estou dando um banho de nostalgia, de memórias brecadas [Che puxa o erre nesta última palavra]. Mas esquecem-se de uma outra frase minha enquanto vivo: Deixe o mundo mudar você, e você poderá mudar o mundo.

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Nova série - Entrevistas do além

Eis uma nova série do Blog do Póvoas. Intitulada Entrevistas do além, os posts que seguem com esta marca virão com uma conversa jornalística ao melhor estilo Chico Xavier. Enfim, o blogueiro aqui pega um personagem morto, pesquisa o que não sabe sobre ele, e ficciona uma entrevista com o dito cujo. Vai aparecer de tudo um pouco: gente da música, do cinema, da literatura, da política... A série, que leva um selo característico com a foto do entrevistado, começa com um deles que teve uma morte misteriosa: Kurt Cobain. Confere aí. Se gostar, leia os próximos posts da série, que vai ao ar aqui toda sexta-feira [a partir do primeiro horário da madrugada].



"FARIA TUDO DE NOVO. EXCETO CASAR COM COURTNEY"

Em entrevista exclusiva, Kurt Cobain fala do além depois de 15 anos longe de seu corpo e esclarece seus últimos momentos em vida

Guilherme Póvoas

Dizem que Kurt Cobain não exalava um cheiro muito agradável durante o auge do sucesso do Nirvana. Mas foi com um perfume natural de misturas de ervas doces que ele entrou na sala para onde estava marcada esta entrevista ao Blog do Póvoas. O encontro com a equipe de reportagem foi marcado para as 16 horas. E quando os ponteiros marcaram este horário no relógio do fotógrafo e o meu celular também apontava 16:00, o último ícone que revirou o mundo do rock apareceu. Ele veio de cima, enquanto todos na sala – inclusive eu – esperavam que uma escada se abrisse do chão cuspindo fogo. Vestindo uma camisa de flanela branca – e limpa -, calça jeans da marca Levi’s e uma camisa com os dizeres Jesus Christ is an anarchist [Jesus Cristo é um anarquista], Kurt Cobain falou por quase duas horas para logo depois sair apressado dizendo que iria ter aula de “como andar sobre as águas”. Com um ar divertido e sem aparentar irritação, desvendou os mistérios sobre a sua morte, confirmou sua briga com a hoje viúva Courtney Love e cantou o refrão de sua última composição, Heavan Can’t Wait [O Paraíso Não Pode Esperar]. Confira os melhores trechos desta entrevista.

Blog do Póvoas – Você morreu há 15 anos. O que você fez durante este tempo?
Kurt Cobain – Logo após a minha morte aconteceram coisas estranhas comigo. Acho que era ainda o efeito das drogas que havia tomado. De qualquer forma, durante minha vida, eu vivia no paraíso, nas alturas. E me pareceu natural quando me mandaram lá para cima. O que eu não esperava era ouvir um “Seja bem-vindo” por parte de Jimi Hendrix. De início, fiquei no paraíso numa ala que separa as pessoas pela idade de quando se morre. Aí acabei junto com o Hendrix, Brian Jones, Gary Thain, Jim Morrison e sua namorada, Janis Joplin.

BP – Jim Morrison namora Janis Joplin?
KC – Sim. Isso não me pareceu estranho. Mas logo ele, com mulher em abundância por lá, escolher logo uma única – e grudar como chiclete. Jim nunca fez isso em vida, resolveu fazer depois de morto. Cada maluco!

BP – Enfim, vamos nos focar no dia de sua morte. O que ocorreu naquele 5 de abril de 1994?
KC – É uma história que nem mesmo Edgar Allan Poe acreditou. Mas Jules Verne sim. Aconteceu o seguinte, e aí tem coisas que pouca gente sabe. Quando fugi da Exodus [conceituada clínica de reabilitação na Califórnia], em Los Angeles, acho que acabei fraturando minha perna, ou algo parecido, quando pulei o muro da clínica. Não sei ao certo, mas ela doía de mais, a perna direita. Mas quando saí de lá só queria voltar para Seattle [na outra ponta dos EUA] o mais rápido possível. Comprei uma passagem com o único cartão de crédito que Courtney não cortou. Quando cheguei a Seattle, era madrugada e estava muito frio – o que aumentou minha dor. Eu estava irritado por vários motivos.

BP – Que motivos seriam esses?
KC – Minhas últimas brigas com Courtney, a minha perna e, principalmente, a falta de drogas. Estava passando por uma abstinência terrível. Mas antes de resolver qualquer um destes problemas, fui direto para a minha casa. Dei um tempo, tomei um banho e coloquei minhas roupas. Aí liguei para Caitlin Moore. Ela é uma boa conversa e me vendia drogas. Encontrei ela no Cactus [restaurante de Seattle]. Fiquei um tempão por lá, reclamando da minha vida e da minha perna para ela. Enquanto isso, ela só perguntava da banda. Me lembro que as minhas últimas palavras para ela foram “Que banda?”.

BP – Depois você foi para casa?
KC – Isso. Fui para casa e tomei boa parte das drogas que havia pegado com Caitlin.

BP – Que drogas eram?
KC – Cocaína e ácido, basicamente. Tinha também maconha. Misturei isso tudo com rohypnol [tranquilizante], liguei a TV e fiquei curtindo tudo aquilo. Não me lembro quanto tempo fiquei lá, olhando para a TV e sentando no sofá. Lembro é que estiquei minha perna direita e fiquei.

BP – Foi assim que você morreu?
KC – Não. Claro que não. Peguei no sono por ali. Quando acordei, sem os efeitos da droga, a minha perna estourou de vez. Doía muito, muito mesmo. Pensando agora, sei que tinha três opções: ir ao médico, tomar mais droga ou ligar para Courtney. A primeira era a mais sensata. A última opção, a menos. Mas não tinha drogas ali por perto, não lembrava onde tinha deixado o ácido que peguei com Caitlin. Enquanto procurava nas gavetas e armário da sala, acabei encontrando a espingarda que o pai de Courtney havia deixado lá por questão de segurança [Curt levanta dois dedos de cada mão, fazendo sinal de aspas quando fala ‘questão de segurança’].

BP – E aí você se deu um tiro?
KC – Esperei um pouco. Levei a arma até a garagem pois fui até lá procurar as drogas, ver se achava elas. Como não achei, atirei.

BP – Você se arrepende?
KC – Não, nunca. Faria tudo de novo. Exceto casar com Courtney.

BP – Muita gente diz que ela foi o principal motivo de sua morte.
KC – Num plano macro, até pode ser. Mas naquele momento, o motivo era a dor na minha perna direita. Senti a mesma vontade de me matar na adolescência quando tinha problemas no estômago. Acho que foi inconsequência da minha parte. Não pensei na minha filha [Frances].

BP – Tem um furo nessa história de seu suicídio. Em que momento você escreveu sua carta de despedida, encontrada na ocasião de sua morte?
KC – Carta? Jamais escrevi carta alguma naquele momento. Que história é essa?

Domingo, 31 de Maio de 2009

Bolo no casamento

Eu ainda não sei como foi que aconteceu. Mas a chuva começou a cair depressa, velocidade d'água, e transformou o bolo do meu casamento numa derretida torre de açúcar de três andares. Ninguém prestou a atenção, o tempo fechou de uma hora para outra – no céu e na festa também. A primeira que me olhou com cara feia não poderia ser outra: minha própria noiva. Depois ainda minha mãe, minha sogra, minha tia... Sei que quando eu fui levar o bolo para dentro de casa, podia sentir os cheiros que se misturavam – o de creme de morango e o de grama molhada dos jardins por onde passava. “Parece uma criança”, alfinetou minha mãe, enquanto eu sujava meus sapatos na grama em direção à cozinha, com o bolo na mão. Enfim, se parecesse eu criança naquele momento, teria ficado ainda dentro de casa com a cara enfiada no bolo. Pelo menos foi isso o que as crianças da festa fizeram: “Já que ninguém vai se arriscar a comer este chantilly aguado, façam o que vocês quiserem.” A recomendação a eles partiu de mim. E o meu sobrinho mais novo não pensou duas vezes: enfiou a mão fundo na base do bolo, como se estivesse descobrindo o sexo naquele momento. Já não era mais minha responsabilidade sobre a higiene das roupas daquele menino. Coube-me voltar para a festa no galpão enquanto pensava se não havia mais nada de comida do lado de fora, dando e virando sopa, enquanto a penetra chuva apresentava seu cartão de visita mais violento – em alto e bom som. Assim que cheguei ao galpão sem o bolo de três andares que se desfigurara pela chuva e pela mão das crianças, senti que ainda sobre mim o peso dos olhares das três mulheres de minha vida. Uma delas veio falar comigo. “Levou o bolo lá para dentro. E agora qual vai ser a sobremesa”, perguntava a minha recém-sogra. Bem, eu não poderia responder outra coisa naquela situação – já que percebia que o casamento formalizado não seria a mesma coisa sem um bolo daqueles bem doce. “Vou comprar um outro, ali, rapidinho.” Respondi como se fosse estivesse resolvendo todos os problemas do mundo. A sogra, pão dura, com um sorriso que me chamava de ingênuo, retrucou:
- Não precisa, não. Pega o bolo molhado pela chuva, corta ele lá dentro. Ninguém notou que ele molhou. O que os olhos não veem a boca não sente.
- Malditas crianças!